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A Mexicana foi inaugurada em 1946 e integralmente remodelada entre 1961 e 1962, segundo um projeto do arquiteto modernista Jorge Ribeiro Ferreira Chaves. Tanto pela sua “conceção espacial como pelos elementos decorativos integrados”, a pastelaria constitui hoje um “notável testemunho das tendências expressionistas do movimento da arquitetura moderna em Portugal”, considera a secretaria de Estado da Cultura.
Paulo Alcobia Neves, neto de um dos fundadores da pastelaria, escreveu um texto sobre a pastelaria Mexicana na página “Raízes e Memórias de Tomar e Ferreira do Zêzere” no facebook, que aqui transcrevemos:
“Ainda a propósito da classsificação da Mexicana como imóvel de interesse público gostava de partilhar convosco que, segundo relatava a minha mãe, este estabelecimento, cujo nome resulta do edifício da Pastelaria estar outrora integrado na Avenida do México, nasceu por sugestão de um afilhado do meu avô, de nome Manuel Penteado, ligado ao ramo da hotelaria, que pretendia estabelecer-se por conta própria e em cujo negócio entraram, como sócios capitalistas, numa espécie de comandita, o meu avô, José Vicente e o seu genro, Adelino Antunes, marido da minha tia mais velha e ambos naturais do lugar do Poço Redondo, sito na então freguesia de Junceira.
Na origem da sociedade estiveram ainda outros dois sócios, um deles, o Sr. Augusto Godinho que se perpetuou, por várias décadas, como gerente da pastelaria. Importa referir que nos anos 40 e 50, os terrenos que hoje integram a Praça de Londres eram propriedade de algumas famílias tomarenses ligadas à construção civil. Parte significativa do terreno onde hoje se ergue a Igreja de São João de Deus era, na década de 50, do meu pai e dos meus tios Gino e Manuel e a grande maioria dos prédios desta praça, da Av. de Roma, e do bairro de Alvalade foram edificados por uma plêiade de empreendedores oriundos de Tomar e de alguns concelhos limítrofes que integravam a segunda leva do chamado movimento dos Patos Bravos.
Ainda hoje, em contraponto aos restantes locais do país, Tomar vê os Patos Bravos como aqueles que ousaram, lutaram, enriqueceram e voltaram com o dinheiro conquistado a pulso, ávidos de empreender melhorias nas suas terras desbravando caminhos, pagando o asfaltamento dos acessos, construindo escolas ou custeando a instalação da luz elétrica em terras que se preservam recônditas algures à beira Zêzere.
Um dia, aqui em Tomar, relatei isto ao saudoso Professor José Hermano Saraiva que, pouco convencido decidiu perguntar a uns quantos transeuntes se sentiam orgulho dos Tomarenses serem conhecidos por Patos Bravos. As respostas foram tão elucidativas e simultaneamente inauditas para quem sempre vira no termo um sinónimo de novo-riquismo e chico-espertice que acabou por introduzir o tema num dos seus programas.
É que, se dúvidas houver no bom gosto de alguns destes, as mesmas começam agora a dissipar-se porquanto muitos foram os que souberam adicionar à qualidade provinda da herança dos ofícios e de técnicas seculares aperfeiçoadas na construção de obras notáveis como o Convento de Cristo e outros monumentos da lavra de Castilho, Arruda e Terzi entre tantos outros, a sabedoria e arte de alguns dos mais consagrados arquitetos e artistas da primeira metade do século passado.
A Mexicana, alvo de classificação, não é a de 1946 mas sim aquela que o meu avô reinaugurou a 5 de agosto de 1962, dia de redobrada festa já que a sua neta “Titá”, minha irmã do meio e atualmente desembargadora na Relação de Évora, comemorava o sexto aniversário.
Mas o novel monumento vai muito além das obras notáveis de Ferreira Chaves ou Querubim Lapa porquanto a Mexicana está intimamente associada à história do movimento Surrealista em Portugal e à de tantos outros movimentos, tertúlias e figuras ilustres que durante décadas por ali passaram.
É para mim claro que maior do que a incontornável riqueza artística deste espaço é o repositório das estórias da sua história nas quais reside, de facto, a grande singularidade da Pastelaria Mexicana.”
Paulo Alcobia Neves
In Raízes e Memórias de Tomar e Ferreira do Zêzere – página no facebook
Notícia do jornal Público:
Pastelaria Mexicana em Lisboa é monumento de interesse público
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