sábado, 1 de junho de 2013

Exposição de pintura na cafetaria do convento

Está patente até 30 de junho na cafetaria do Convento de Cristo em Tomar a exposição de pintura “Formas de Sentir”, de José Augusto Coelho.



Preâmbulo ao artista e à obra

Há um momento da vida em que a viagem começa na estação de destino. Porque aí, é quando o nosso olhar já viveu tantos horizontes, que o lugar da partida deixa de importar. É que a visão do Ser e do Mundo se vai alargando, não porque os horizontes se tornem mais largos, mas porque a nossa capacidade de absorver a luz vai aumentando à medida que vamos abandonando as “palas” que nos cerceiam a visão. Para o artista plástico o fenómeno é recorrente e, quando não é, a visão divaga, é vaga, ou é ausente. Picasso já na sua idade matura, passada a fase do cubismo - que foi a sua estação de destino, - partiu para a grande viagem que foi a própria libertação, da sua criação artística, com respeito aos movimentos estéticos e intelectuais que até então abraçara; por essa ocasião dizia numa entrevista: “eu não procuro, eu encontro.” É certo que o universo da obra deste artista transcende de longe a simplicidade da ideia que aqui pretendo realçar, de um modo generalista, a propósito de um padrão de percurso da criatividade nos artistas. A diferença de escala não impede, no entanto, que esta constatação tenha sido feita ao percurso de Picasso por muitos dos seus biógrafos e críticos de arte.
Quando as palas, os conceitos - ou os preconceitos - formais e intelectuais cessam de ser óbice à viagem criativa e a arte passa a ser o próprio homem, a sua vida própria, então a estatura do artista passa a ser a do Homem, quaisquer que sejam as consequências que dessa transmutação possa advir. Por isso, muitas vezes, a própria obra do artista passa a ser menos badalada ou até é abandonada a uma espécie de alheamento, por um mundo que continua na sua frenética voragem pela inovação, pela corrida aos novos “ismos” formais e conceituais. Mas, e o Homem? Onde é que está o Homem nesses novos artistas da “viagem de partida”?
Absorvidos pelas preocupações de “fazer carreira”, ter currículo, aguçados pela necessidade de se afirmarem distintivamente, pelo reconhecimento do seu autorismo, presos na obsessão da originalidade e na vertigem da inovação, o artista de hoje tende a afastar-se da essência do seu ofício. A mestria do “fazer” que fundiariamente está na origem de toda a arte, perde-se ou é escamoteada pelas outras preocupações ou necessidades que o foram arrebatando de si mesmo.
Será que ser simplesmente “bom pintor”, “bom escultor”, “bom músico” deixou de ser relevante para o Homem porque já não o é para um mundo onde a arte é pautada por uma espécie de sensacionalismo.  “Fazer uma coisa que seja bem feita” tal era o desejo expresso por Fernando Pessoa no seu “Heróstrato”, obra onde desmonta toda esta mistificação da dita originalidade e do sensacionalismo: “são como bêbados aos berros no meio da noite: conseguem arrancar o cidadão ao seu descanso, para logo a seguir as suas vozes se perderem no virar de uma esquina.”
Encontrei em José Augusto Coelho aquela vontade, aquela aspiração de “fazer uma coisa bem feita”. Vi na sua obra a estatura do homem que começa a viagem na estação de chegada, porque o carrossel das mistificações já vai longe do seu olhar e a sua vida foi pautada pelo fazer, pelo trabalho. A criatividade é algo que começou a germinar muito cedo, na sua aldeia de infância em Trás-os-Montes: um tempo e um lugar fundidos num só ser. Como as sementes das grandes árvores que vivem inumadas por longo tempo e lentamente crescem até revelarem todo o esplendor de seres adultos, também a obra deste artista foi germinando por entre muitas aprendizagem e saberes-de-fazer que a vida lhe colocou como percurso – e viagem.
“Formas de sentir” é o título que José Augusto Coelho deu à sua colectânea de pinturas em exposição na Cafetaria do Convento de Cristo. No dizer do artista, “cada obra tem que ter técnica, estética e mensagem” que é o mesmo que dizer: mestria, beleza e poesia. Foram estas três qualidades que eu fui encontrar naquele conjunto de obras, que desde a composição de cariz geométrico, passando pela natureza morta, pela obra de tema, até à paisagem, imprimem ao ambiente uma sensação de musicalidade, de harmonia festiva onde as contradições se dissolvem.

Álvaro José

Biografia
José Augusto Coelho  nasceu em Vale de Frades – Vimioso em 1947. Desenhador projectista de arquitectura, engenharia e desenho publicitário (aposentado). Iniciou o curso de pintura na Casa Pia de Lisboa, tendo como professores o Pintor Álvaro Perdigão, Escultor Hélder Batista, Raul Xavier entre outros e concluiu a sua formação artística em 1973, na Escola de Artes Decorativas António Arroio em Lisboa.
Frequentou a secção preparatória para as Belas Artes, retirado da área do desenho técnico dedica-se, a tempo inteiro à pintura e à música.
Exposições individuais e colectivas fazem parte da sua criatividade artística, desenvolvida fundamentalmente numa temática Universal figurativa e outra abstraccionista; estando
representado em diversas colecções públicas e particulares em Portugal e no Estrangeiro.
É membro do Círculo Artístico e Cultural Artur Bual e da Associação de Pintores Arcoartis.
Contacto: 969053518
email: jarcoelho@meo.pt

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